Data da ultima atualizaçao
Pulmonar - Pela sua Saúde Respiratória - Museu da Tuberculose - O toque das mãos do rei 03/08/2012



Museu da Tuberculose - O toque das mãos do rei


Escrito por Mauro Gomes
Mestre em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo
Professor Instrutor de Ensino da Disciplina de Pneumologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo

O misticismo desempenhou importante papel na Idade Média. A presença de amuletos, assim como a farmacopéia [Eduardo, o Confessor, curando os escrofulosos. Miniatura inglesa do sec. XIII (Universidade de Cambridge). Extraído de Castiglioni A. Medicina no Fim da Idade Média. In: História da Medicina. Companhia Editora Nacional, 1947.] milagrosa, eram aliados importantes da medicina neste período. Prescrições de excreções de animais repugnantes caminhavam ao lado da crença absoluta no poder de demônios e feiticeiras. Era natural a terapêutica através de exorcismos, sendo o sacerdote o substituto do médico, este impotente para curar doenças devidas aos “espíritos malignos”.

Foi nesse período que se originou a crença da cura da escrófula através do toque das mãos do Rei, perdurando isso por muitos séculos. Pensava-se que os reis recebiam o poder de curar após serem consagrados pelos Santos Óleos. Só quando este tratamento falhava é que se aconselhava recorrer ao cirurgião.

Na realidade, a tradição e o uso do poder de curar, como atributo divino ou real, remonta a épocas muito mais antigas. Imagens gregas de Esculápio representam-no colocando as mãos sobre o doente. Escritos romanos falam-nos de imperadores curando cegos e outras doenças. A cura pela imposição de mãos também faz parte da tradição cristã.

A tuberculose linfonodal, à época chamada escrófula, foi conhecida na Inglaterra como “Mal do Rei”. Encontra-se nas crônicas de Eduardo, o Confessor (sec. X), o registro de curas obtidas pela imposição das mãos reais sobre a parte doente. Em livros da casa de Eduardo I há anotações sobre 43 pessoas tocadas pelo rei em 4 de abril, 192 na semana seguinte e 288 na Páscoa do ano de 1277. Até Shakespeare refere-se ao toque real em “Macbeth”.

Nesta época o rei da França também reivindicava para si o mesmo poder. Naquele país, segundo Tilemond, apud Castiglioni1, o rei preparava-se por meio de jejuns e orações, e após ter comungado e venerado o túmulo de S. Marcolfo em Corbigny, recebia os pacientes que desfilavam diante dele. Colocava os dedos sobre a parte doente, fazia o sinal da cruz e pronunciava as palavras: “O Rei te toca e Deus te cura”. O doente era abençoado e recebia comida e dinheiro para voltar para casa.

Existiram divergências sobre a prioridade dos reis da Inglaterra sobre os reis da França com relação ao toque real. Os franceses afirmavam que foi Clóvis (496 d.C.) o primeiro a usar o poder de curar. Os ingleses retrucavam dizendo que os reis da França herdaram este poder dos seus parentes, reis ingleses. Na Inglaterra a prática caiu em desuso pouco tempo depois. Na França ela permaneceu até o século XIX. Há referências que Luiz XVI, quando de sua coroação em 1775, tocou 2400 pacientes e Carlos X, em 1824, 121 doentes.

Referências bibliográficas:

1. Castiglioni A. Medicina no Fim da Idade Média. In: História da Medicina. Companhia Editora Nacional, 1947, pp 378-480.
2. Lyons, AS & Petrucelli, RJ. The Nineteenth Century: The Middle Ages. In: Medicine - an illustraded history. New Iork, Abradale Press-Harry N. Abrams Inc, Publishers, 1987. p. 355-7.

Mauro Gomes é professor da disciplina de pneumologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

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