Data da ultima atualizaçao
Pulmonar - Pela sua Saúde Respiratória - Museu da Tuberculose - A Casa de Clemente 03/08/2012



Museu da Tuberculose - A Casa de Clemente

Escrito por Maria Teresa Ortega Garcia

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg

Fernando Augusto Fiúza de Melo
Doutorado em Medicina (Pneumologia) pela Universidade Federal de São Paulo
Médico do Instituto Clemente Ferreira


No mesmo ano de 1889 que Robert Koch descobre o bacilo, o italiano Forlanini realiza o primeiro pneumotórax terapêutico, iniciando os procedimentos de colapsoterapia, corretamente denominado por José Rosemberg como primeiro tratamento racional para a tuberculose. O objetivo era o colabamento do pulmão doente com presença de cavidade, já então relacionada a transmissão e morbimortalidade da doença. Esta conduta e outros métodos empíricos terapêutico e sanitários fazem parte dos procedimentos de vanguarda introduzidos em 1913 no dispensário urbano da Consolação. No pátio central do Instituto, havia um solarium onde os doentes realizavam helioterapia. Escarradeiras eram alocadas em vários locais da Casa, como forma de prevenção da transmissão da doença.

No final da década de 20 do século passado, os primeiros ensaios com a vacinação BCG, inicialmente oral e depois subcutânea, estimularam Clemente Ferreira e sua equipe a aplicá-la em filhos de tuberculosos. No começo dos anos 30, inicia-se no mundo a chamada “fase cirúrgica” da tuberculose. Em 1932, mantendo seu pioneirismo na aplicação de novas técnicas, o Instituto Clemente Ferreira ergue um anexo que funcionaria como a ala cirúrgica do serviço e onde se realiza a primeira pneumonectomia do Estado de São Paulo, por uma equipe de jovens cirurgiões, entre eles Zerbini.

Dois anos mais tarde, com a diminuição das doações oficiais, vê-se a Liga Paulista Contra a Tuberculose, fundada por Clemente e outros, impedida de manter o Dispensário, quando então é doado ao Governo do Estado, que o gerencia até hoje e garante seu destino de luta contra a tuberculose, agora assumido pelo Estado com a formação do Serviço Nacional de Tuberculose. Clemente Ferreira, em 1934, mais do que doar a Instituição ao Estado, passou para a responsabilidade dos governantes toda a tarefa de elaborar e executar uma política de combate à Tuberculose. Era isso o que significava a instituição na época, praticamente um dispensário central, coordenando uma rede de atendimento aos tuberculosos, com o objetivo não só terapêutico, mas, sobretudo profilático, tanto no sentido educativo, como na aplicação da vacina BCG.

Nas décadas que se seguiram, outros avanços foram incorporados ao arsenal terapêutico da doença no Brasil. O Instituto Clemente Ferreira, como era conhecida a Divisão de Tisiologia e Pneumologia Sanitária, agora ligado a Secretaria de Saúde Estadual, continuava como irradiador dos novos conhecimentos sobre a doença no Estado e no país. À sua luz, e seguindo os conceitos sanitários de Clemente Ferreira, foram criados dispensários por todo o Estado. As décadas de 40 e 50 receberam o advento das drogas contra a tuberculose. Surgia a quimioterapia e a esperança real de controle da doença. Em 1947 as primeiras ampolas de estreptomicina desembarcaram no país, aplicadas entre outros, também pelo ICF. Em 1952 chega ao país a primeira partida da hidrazida do ácido nicotínico (isoniazida) medicação fundamental até hoje, no tratamento da doença.

Novamente, é no Instituto Clemente Ferreira juntamente com o Hospital de Curicica, Rio de Janeiro, onde primeiro se administra a droga recém descoberta. Os anos 60 trazem a Rifampicina, um novo marco na história terapêutica da doença. Outra vez o ICF é convocado, participando do primeiro ensaio clínico do esquema de curta duração, com rifampicina e isoniazida associadas em um único comprimido por seis meses, mais a pirazinamida nos dois meses iniciais.

O outro braço do esquema foi feito na região de Registro com os profissionais locais treinados pela equipe do ICF, liderada por Mozart Tavares de Lima Filho. A necessidade do diagnóstico diferencial com outras doenças pulmonares, começa a exigir maior capacidade resolutiva do serviço. Na década de 40, o ICF inaugura o primeiro serviço de abreugrafia na capital paulista, com a presença de Manoel de Abreu seu descobridor. Até o final dos anos 70, o ICF realizava cerca de 300 a 400 abreugrafias semanais, uma exigência trabalhista de então. Além da radiologia tradicional, funciona ali, um planígrafo, doado para Clemente em uma das suas viagens para a Europa.

Atendendo às novas demandas, o Instituto se equipa e surge a broncoscopia, broncografia, a prova de função respiratória. Aumenta a capacidade do laboratório de bacteriologia. Criam-se os de micologia e bioquímica, que se anexam ao de citologia e histopatologia liderados por Saraiva. Estudos de resistência micobacteriana têm sido tradicionalmente realizados pelo ICF, começando por Rosemberg e Caetano, continuado por Tavares de Lima e mantido nas diretorias de Quilici, Cestari, Afiune e na atual, com diversos trabalhos publicados. Junto com o Hospital do Servidor Público Estadual, Cestari Filho, Morrone e outros realizam o primeiro estudo da utilização da ADA (adenosina deaminase) no diagnóstico do derrame pleural tuberculosos, publicado em 1987. Outros estudos se seguiram com Afiune, Médici e Fiúza de Melo, até a tese de doutoramento deste último em 1997 na Escola Paulista de Medicina.

Na década de 80 é implantado o Programa Nacional de Controle da Tuberculose, com esquemas terapêuticos padronizados. Desde esta época, começa no serviço a preocupação com os pacientes que não respondem aos esquemas normativos referenciados para o ICF. Inicia-se aí, o estudo da abordagem dos portadores de tuberculose multirresistente (TBMR), acompanha-se sua evolução antes do uso de drogas alternativas, estuda-se diversas opções terapêuticas com antigos e novos medicamentos, que culmina com a base de uma proposta para ensaio terapêutico, realizado em cooperação com o Centro de Referência Hélio Fraga testando e aprovando o atual esquema indicado no país. Além dos ensaios terapêuticos, realiza estudos epidemiológicos e bacteriológicos sobre a resistência múltipla na cidade de São Paulo. A proposta de regimes intermitentes e supervisionados no tratamento da tuberculose, não foi esquecida pelo ICF.

Nos meados da década de 80 colabora na Tese de Castelo Filho, da Disciplina de Doenças Infecciosas e Parasitárias da EPM, comparando regimes intermitentes e diários. No final desta década, o Serviço de Enfermagem ICF, introduz uma criativa forma de regime supervisionado, a Supervisão - Cooperada, que articula a atenção de pacientes referenciados no ICF com a supervisão de tomada dos medicamentos em unidades próximas a moradia destes. Na década seguinte, em continuidade ao proposto por Castelo Filho, participa de ensaio clínico comparando um regime supervisionado/intermitente com diários e intermitentes não supervisionados, que resultou na Tese de Doutorado de Margareth Dalcolmo, na EPM-UNIFESP em 2000.

Mais recentemente o ICF testou novos métodos de diagnóstico micobacteroiológico, com estudos validando sistema automatizado de cultura do bacilo (BACTEC.960-MGIT) e sonda genética para identificação das micobactérias (ACCUPROBE-GENPROBE).


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