Data da ultima atualizaçao
Pulmonar - Pela sua Saúde Respiratória - Museu da Tuberculose - Tuberculose e as Artes 03/08/2012



Museu da Tuberculose - Tuberculose e as Artes


Sidney Bombarda
Doutorado em Medicina pela Universidade de São Paulo
Efetivo do Secretaria de Estado da Saúde
colaborador da Disciplina de Pneumologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo
Pneumologista da Divisão de Tuberculose da Secretaria da Saúde de São Paulo e da Prefeitura do Município de São Paulo


Apreciar a arte é tarefa gradual e infinita. A profundidade do pensamento, o sentimento e a vivência do artista transcendem à beleza ou ao impacto visual da obra para expressar, muitas vezes, uma realidade atemporal e modificadora da alma humana. A tuberculose, por sua vez, é dotada de elementos altamente simbólicos que sempre impressionaram o imaginário individual ou coletivo, determinando condutas na organização social histórica. A hemoptise, a segregação social imputada pela doença, a solidão nos sanatórios ou o próprio sanatório, o frio das montanhas distantes, os suores noturnos, a febre baixa ao pôr do sol, a morte eminente na fase pré-medicamentosa, o pneumotórax e a expansão dos sentimentos, da sexualidade ou de estados variados de perversão supostamente desencadeados pela toxina tuberculosa, fazem parte dessa simbologia amplamente transposta para o universo da arte.

A mitologia que cerca a tuberculose e o excesso de sofrimento suscitado pela associação de analogias com a realidade biológica da doença é analisada em A doença como metáfora, de Susan Sontag. Consagrada pelos românticos como a “febre das almas sensíveis”, a doença era vista como amplificadora da sensibilidade, da genialidade e da produção intelectual. A febre dos corpos era confundida com o fogo das paixões. Nesta época a “idéia moderna de individualidade” se expressava pelo fato de ser, o doente, diferente e “mais interessante” dos demais, pelo confronto direto com a percepção da morte e o conseqüente refinamento das sensações e dos sentimentos. O próprio Laênnec atribuiu as aventuras amorosas intensas como motivo e resultado da degeneração pulmonar.

A identificação do Mycobacterium tuberculosis determinou o caráter transmissível da doença e os doentes passaram da condição de sensíveis para degenerados, perturbadores da ordem social. A ciência seguiu o seu curso,mas a simbologia da doença permanece, por vezes indelével, até os dias de hoje.

“É um país sossegado/ Que não tem hemoptise/ É uma terra decente/ Sem escarros no chão/ Putupum, putupum...” É assim que Jamil Haddad, poeta acometido pela doença descreve, no ano de 1943, o paraíso não tão distante devido à precariedade da vida, determinada pelo sangramento premonitório da morte. A mesma hemoptise, ou o mesmo símbolo, está presente no cinema americano em My sweet Valentine em que Victor Mature representa Doc Holliday o lendário dentista-pistoleiro-tuberculoso, vil e destemido, porém impotente perante o incurável. Ou ainda em Moulin Rouge, cujo subtítulo Amor em vermelho é um prenúncio da morte inevitável da heroína vivida por Nicole Kidman. O cinema brasileiro também adaptou o romance de Dinah Silveira de Queiroz, Floradas na Serra, um título supostamente delicado e que, de forma sutil, oculta a sua tragicidade e simbolismo: a coloração rosada das floradas dos pessegueiros lembra o branco dos lenços tingidos de sangue. Ainda, as floradas coincidem com a estação mais propícia às hemoptises. A vida nos sanatórios também foi fonte freqüente de inspiração para vários artistas, como Thomas Mann, autor de A Montanha Mágica que expõe as profundas mudanças interiores após a experiência com a própria doença e o exílio nas montanhas alpinas e que, de mágicas não tinham nada. 



Nicole Kidman em Moulin Rouge.


Paul Gadenne foi outro autor-tuberculoso que narrou os dilemas da condição de doente, aprofundando as explorações no terreno minado de experiências pessoais com a “doença do peito”.

No Brasil, a partir de meados da década de 1930, houve uma sensível alteração na autoria dos textos literários sobre a tuberculose. Autores que discorriam sobre o tema passaram, eles próprios, a ser tributários da doença, competindo com as composições pretensamente realistas que até aquele momento dominavam o assunto. Assim, sucessivos “doentes do peito” empenharam-se em seguir o modelo intimista, em primeira pessoa, conforme destaca Cláudio Bertolli em seus trabalhos antropológicos. Paulo Setúbal, Paulo Sérgio e Jamil Almansur Haddad foram alguns entre os vários intelectuais que confidenciaram literariamente suas lutas pessoais contra a tuberculose.

A solidão, a desigualdade social, a rotina sanatorial, a desesperança estão presentes na obra de Nelson Rodrigues que esteve internado em Campos de Jordão por várias vezes. A tuberculose e a miséria, entre outras tragédias pessoais, fizeram com que adotasse um processo de criação que enfatiza um ambiente mórbido, pessimista e descrente da vida: “Estava tuberculoso por causa da fome. Era fome, no duro... A fome não tem limites. As pessoas fazem aquilo que jamais pensaram que fossem capazes de fazer, quando passam fome../. uma fauna misteriosa e tristíssima de tosses./ Ainda não morri e já me esqueceram...”

Nelson Rodrigues, várias passagens por sanatórios.

A vida nas montanhas também foi narrada no, já citado, Floradas na Serra, em 1939, e em As águas não dormem..., de 1946, escrito por Paulo Dantas. Esses dois romances são narrados na terceira pessoa, muito embora Paulo Dantas não tenha escondido a sua condição de tuberculoso. Dinah, por sua vez, não declara a doença para si, mas três gerações de sua família haviam sido acometidas pela doença.

Em sua obra, o chamado “perfil psicológico” dos doentes foi traçado pela autora nos próprios sanatórios, mas, segundo Bertolli, “parece que Dinah concluiu que nenhum tísico reunia forças suficientes para alterar o rumo da vida que fora assenhoreada pela peste”. Já Dantas discorreu exaustivamente sobre as pretensas perversidades morais da tuberculose, aceitando na íntegra a versão corruptora dos sentidos apregoada como marca dos tuberculosos em tempos passados, enquadrando-se simbolicamente no modelo comportamental preconizado como exclusivo dos tributários da peste branca.

A solidão e o isolamento relacionados à tuberculose estão presentes em Eu Nua, um dos livros autobiográficos - Nelson Rodrigues, várias passagens por sanatórios. Odete Lara, autora de Eu Nua. 32 Boletim Pneumologia Paulista 36, 2007 de Odete Lara. O pai é internado em Campos de Jordão e o caminho entre São Paulo e a “estação climática” é de uma imensidão quase intransponível na década de 40. Ambos sentem-se sós e isolados pela doença.



Odete Lara, autora de Eu nua                                                                                

Mimi, a heroína de Pucccini, na ópera La Bohème, ou a Violeta de Verdi, em La Traviata, são exemplos da imensidão de personagens fictícios ligados à tuberculose. É imenso também o número de artistas que morreram em decorrência da doença como Delacroix, Frédéric Chopin, Álvares de Azevedo, Noel Rosa, Tchekhov, Franz Kafka, George Orwel, Vivien Leigh, entre outros. Há também aqueles que, como Manuel Bandeira, sobreviveram aos estigmas, aos sanatórios e às hemoptises da era pré-medicamentosa. Bandeira, acometido pela doença aos 18 anos, escreveu em seu primeiro livro A cinza das horas, de 1917: “Menino, / Fui, como os demais, feliz. / Depois, veio o mau destino. / E fez de mim o que quis”. No poema Pneumotórax: “O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado./ - Então doutor, não é possível fazer o pneumotórax?/ - Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino”. Mas o poeta viveu por 84 anos.

Apesar dos avanços no diagnóstico e tratamento, a simbologia imputada à tuberculose permanece, por vezes de maneira imutável, no imaginário da coletividade. Por outro lado, a fome e a desigualdade social, entre outros “reais” fatores, conferem ao doente um caráter de exclusão ou de “nunca incluso”, dificultando o adequado controle da doença. Como a tuberculose seria artisticamente representada nos dias de hoje? A doença ou o doente e suas angústias mudaram? O tempo, talvez, nos responda. Por enquanto, compete-nos a arte de cuidar “do doente” e não “da doença”.

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