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Pulmonar - Pela sua Saúde Respiratória - Museu da Tuberculose - Manuel Bandeira - O amigo do Rei 03/08/2012



Museu da Tuberculose - Manuel Bandeira - O amigo do Rei


Escrito por Mauro Gomes
Mestre em Medicina pela Faculdade de Cincias Mdicas da Santa Casa de Misericrdia de So Paulo
Professor Instrutor de Ensino da Disciplina de Pneumologia da Faculdade de Cincias Mdicas da Santa Casa de Misericrdia de So Paulo


Assim descreve Manuel Bandeira sua chegada Sua, aos 28 anos de idade, com o fim de tratar sua tuberculose:

() Fui vivendo, morre-no-morre, e, em 1914, o doutor Bodner, mdico-chefe do Sanatrio de Clavadel, tendo-lhe eu perguntado quantos anos me restariam de vida, me respondeu assim: o senhor tem leses teoricamente incompatveis com a vida: no entanto, est sem bacilos, come bem, dorme bem, no apresenta em suma nenhum sintoma alarmante. Pode viver cinco, dez, quinze anos Quem poder dizer? Continuei esperando a morte para qualquer momento, vivendo sempre como que provisoriamente. (Manuel Bandeira - Itinerrio de Pasrgada).

Nascido em Recife, em 1886, aos 18 anos foi acometido pela tuberculose, doena poca estigmatizante e que levava os doentes ao isolamento social. Em conseqncia disso, foi obrigado a abandonar seus estudos na Escola Politcnica de So Paulo e peregrinar por diversas cidades em busca de tratamento. Antes de chegar Sua, onde permaneceu por cinco anos, passou por Campanha, em Minas Gerais, Terespolis, no Rio de Janeiro, Quixeramobim, Uruqu e Maranguape, no Cear.


Quando aos 18 anos, adoeci de tuberculose pulmonar, no foi a maneira romntica, com fastio e rosas face plida. A molstia, que no perdoava, caiu sobre mim com uma machadada de brucutu. Fiquei, logo, entre a vida e a morte. E fiquei esperando a morte que no vinha.
(Manuel Bandeira: 1886-1968)

A convivncia diria com a solido e a tuberculose tornou Manuel Bandeira um dos grandes nomes do Modernismo e da poesia brasileira. Foi eleito em 1940 para ocupar a cadeira de nmero 24 da Academia Brasileira de Letras.

Na obra Itinerrio de Pasrgada, Manuel Bandeira faz uma retrospectiva melanclica e afirma que o convvio com a idia de morte repousante, e faz dela a sua companheira, imbuindo a poesia de profundo sentimento de solido. Este sentimento possivelmente derivava da sua convivncia com a tuberculose, que o condenava a privar-se de tudo o que caracterizava a vida de um jovem e o fim de muitos sonhos. Alguns supem ser a doena o motivo que o tenha feito permanecer solteiro at sua morte.

Itinerrio de Pasrgada, publicada em 1954, pode ser interpretada como uma autobiografia. Pasrgada um local imaginrio eleito por Bandeira para a realizao de um sonho. O autor convida a todos a ir embora para Pasrgada e tornar-se amigo do rei, um lugar ideal, utpico, onde tudo possvel. l onde existe, como se fosse uma dimenso paralela real, a vida inteira que podia ter sido e que no foi. Talvez expressasse seu sonho e o desejo de experimentar uma vida diferente daquela sua vivida ao lado da tuberculose.

possvel que a presena da ironia em seus poemas deveu-se convivncia diria de Bandeira com o pesadelo da morte. Os tratamentos existentes poca eram pouco eficazes e, no raro, mutilantes. Em Pneumotrax, nota-se bem a ironia presente junto com a melancolia. Em uma poca em que se tratava a doena realizando-se o pneumotrax, por que o autor no escreveu danar um samba ao invs de um tango argentino? Talvez porque o samba seja sinnimo de alegria e o tango traga embutido em si um sentimento de tragdia!


PNEUMOTRAX

Febre, hemoptise, dispnia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que no foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o mdico:

Diga trinta e trs.
Trinta e trs trinta e trs trinta e trs
Respire.

O senhor tem uma escavao no pulmo esquerdo e o pulmo direito infiltrado.
Ento, doutor, no possvel tentar o pneumotrax?
No. A nica coisa a fazer tocar um tango argentino.
(Manuel Bandeira: 1886-1968)


Ningum imaginava que Manuel Bandeira pudesse viver tantos anos driblando a tuberculose e a morte. Faleceu somente em 1968, aos oitenta e dois anos de idade. E, como se por uma ironia, uma pea pregada pelo destino, caracterstica tantas vezes presente em suas obras, morreu em decorrncia de uma lcera de duodeno.

Referncias bibliogrficas

1. Vainsenche SA . Manuel Bandeira. Disponvel em URL: http://www.fundaj.gov.br/docs/pe/pe0097.html. Acessado em maro 09, 2005.

2. NILC. Manuel Bandeira. Disponvel em URL: http://www.nilc.icmc.sc.usp.br/literatura/manuelbandeira.htm. Acessado em maro 09, 2005.

3. Silva BAS. Estrela da Vida Inteira. Disponvel em URL:http://www.feranet21.com.br/livros/resumos_ordem/estrela_da_vida_inteira.htm. Acessado em maro 09, 2005.

Mauro Gomes professor da disciplina de pneumologia da Faculdade de Cincias Mdicas da Santa Casa de So Paulo


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